Consórcio gramínea e leguminosa: uma estratégia para produção sustentável.

A pecuária no Brasil tem como base a utilização de pastagens, que é a forma mais econômica de se produzir leite e/ou carne. O País tem aproximadamente 170 milhões de hectares de pastagens, contudo 50-70% deles estão em algum estágio de degradação, resultado de manejo abaixo de seu potencial produtivo comprometendo a viabilidade da atividade e o meio ambiente.

Com um mercado mais exigente, os produtores terão que mudar o comportamento e os modelos atuais de produção, para assim assegurar a produtividade e a competitividade de suas propriedades. Fatores como a preservação dos recursos naturais e a mitigação dos impactos ambientais através de tecnologias sustentáveis devem ser levados em conta.

As leguminosas como estilosantes (Stylosanthes spp.), o amendoim forrageiro (Arachis pintoi), as crotalárias (Crotalaria juncea e Crotalaria ochroleuca), o feijão guandu (Cajanus Cajan), desmódio (Desmodium ovalifolium), gliricídia (Gliricidia sepium) e a leucena (Leucaena spp.) têm a capacidade de fixar o nitrogênio (N) no solo através da fixação biológica do nitrogênio (FBN), que traz diversos benefícios e consequentemente auxiliam no aumento da produtividade, como:

  • alternativa sustentável para reduzir, ao menos em parte, a utilização de fertilizantes químicos;
  • melhorar a qualidade da forragem ofertada aos animais;
  • reduzir a emissão de gases de efeito estufa (GEE); 
  • aumentar a produtividade animal a pasto;
  • diminuir os custos de produção;
  • aumentar a rentabilidade do produtor.Veja abaixo como o consórcio de leguminosas e gramíneas pode contribuir para um sistema de produção mais sustentável. Confira!

A reposição insuficiente de nutrientes nas pastagens

A quantidade de produtores que fazem a manutenção da fertilidade das pastagens anualmente, ou antes do plantio, é muito baixa.

A falta de reposição dos nutrientes do solo por fertilizantes explica o aumento nos processos de degradação das pastagens. Mas quem quer aumentar a produtividade e recuperar a pastagem, tem uma alternativa além do fertilizante: as leguminosas.

Quais as vantagens das leguminosas para o solo, animal e meio ambiente?

As leguminosas disponibilizam nitrogênio ao solo, mas é importante levar em consideração a compatibilidade do consórcio entre as espécies de gramíneas e leguminosas, para que haja persistência e estabilidade do consórcio. Essa compatibilidade está relacionada com fatores relacionados à planta e ao meio ambiente, como a forma de crescimento, a exigência em fertilidade, seca ou excesso de água e manejo.  Entre os consórcios com compatibilidade podemos destacar: amendoim forrageiro (Arachis pintoi cv. Belmonte) com Brachiaria humidicola, Stylosanthes guianensis cv. Mineirão ou Calopogônio com braquiárias, Stylosanthes guianensis cv. BRS Bela com BRS Paiaguás ou B. decumbens, Arachis pintoi cv. BRS Mandobi com B. decumbens, B. brizantha (cv. BRS Piatã, Xaraés, BRS Ipyporã e Marandu), B. humidicola e Panicuns (cv. Massai, BRS Tamani e Mombaça).

A leucena é uma leguminosa que demanda solos de maior fertilidade, enquanto que o amendoim forrageiro pode ser utilizado em sistemas menos intensivos. Ambos são muito nutritivos e podem ser consumidos pelos animais em qualquer época do ano. Quando em consórcio, tem um grande impacto na produção animal, principalmente no período das águas.

No entanto, devemos ressaltar que a leucena é uma leguminosa arbustiva, que se deixarmos crescer livremente pode atingir até 5 metros de altura. Portanto, deve ser realizado periodicamente um manejo de poda e por conta de seu porte mais alto é mais indicada para consórcio com gramíneas de porte mais alto, como os Panicuns.

Consórcio gramínea e leguminosa traz inúmeras vantagens para um sistema agropecuário sustentável

O consórcio de gramínea e leguminosa não só favorece o desempenho dos animais como também ajuda na redução da emissão de gás carbônico (CO2), óxido nitroso (N2O) e metano (CH4). 

Tais informações foram constatadas pelo Instituto de Zootecnia-APTA de Nova Odessa, SP – que avaliou o desempenho de bovinos em sistemas consorciados de capim-marandu com a leguminosa Macrotiloma.

A pesquisa teve como objetivo estudar os efeitos do consórcio de gramínea e leguminosa no solo, na forragem, no animal e no meio-ambiente. O consórcio contribuiu para a redução de 66% da emissão de metano (CH4) pelos animais, mas também promoveram: 

  •   Maior qualidade nutricional pelo maior teor de proteína bruta e menor teor de fibra:
  •   Maior digestibilidade da dieta;
  •   Aumento no ganho médio de peso diário (GMD) dos bovinos em até 74% em relação aos animais em áreas de pasto solteiro.

Pesquisa realizada pela Embrapa Agropecuária Oeste (MS) em 6 municípios do Mato Grosso do Sul, mostra que o consórcio de gramíneas forrageiras com crotalárias resulta em um aumento de até 20% no cultivo de soja, além de aumentar a quantidade e qualidade da forragem produzida. As crotalárias utilizadas na pesquisa foram a C. juncea, C. spectabilis e C. ochroleuca. Já as gramíneas forrageiras foram a Brachiaria ruziziensis cv. Brachiaria ruziziensis, Brachiaria brizantha (cv. Xaraés) e Panicum maximum (cultivares BRS Tamani e BRS Zuri).

Veja abaixo as principais vantagens do uso de leguminosas em sistemas de consorciação com gramíneas:

  • Sequestro de carbono e mitigação dos gases de efeito estufa

Assim como qualquer atividade, a pecuária tem relação com a emissão de GEE (Gases de Efeito Estufa), contudo as forrageiras, quando bem manejadas, são capazes de sequestrar quantidades significativas de carbono, fixando-o no solo de forma orgânica, contribuindo com a redução da emissão desses gases. Por isso é tão importante a adoção de práticas produtivas e sustentáveis, sendo o consórcio uma estratégia de produção a fim de equilibrar o impacto da atividade no meio ambiente. 

Sistemas exclusivos de gramíneas têm a capacidade de aporte de N limitada pela deficiência de nutrientes e a baixa taxa de mineralização. Já com a inclusão de leguminosas em sistemas consorciados é significativo o aumento do estoque de carbono. Outros compostos associados às leguminosas são os taninos que reduzem a metanogênese e consequentemente a emissão de metano (CH4).

Além de proporcionar benefícios aos pecuaristas, a inclusão de leguminosas é uma das tecnologias de baixa emissão de carbono e que vem contribuindo para atingir os compromissos do Brasil de reduzir em 30% as emissões de metano (CH4) até 2030.

Pastagens consorciadas também são mais produtivas e nutritivas, o que torna o sistema de produção mais eficiente, reduzindo as emissões de metano (CH4) entérico por quilo de carne ou litro de leite produzidos. 

Em estudo realizado pela Embrapa*, com o consórcio da leguminosa BRS Mandarim com o capim-marandu e capim-braquiarinha, foi observado aumento de 58% no ganho de peso dos bovinos e redução de 70% na emissão de metano (CH4) por quilo obtido. A emissão diária de gases por quilo de ganho de peso foi de 614,05 g no consórcio contra 2.022,67 g na pastagem degradada. 

  • Consorciação contribui no aporte de nitrogênio

A fixação biológica do nitrogênio (FBN) é a principal forma de inclusão de N atmosférico no sistema solo-planta. As leguminosas são as principais fixadoras do elemento.

A quantidade de N a ser fixado no solo irá depender do tipo de espécie e das condições ambientais, como:

  •       Acidez e salinidade do solo
  •       Deficiências ou excesso de nutrientes
  •       Estresse hídrico
  •       Variações na temperatura
  •       Pragas e doenças

Enfim, quanto menor a quantidade de N no solo, maior a proporção de N disponibilizado pela FBN.

O feijão guandu, por exemplo, é uma leguminosa que ajuda a reduzir a deficiência de fósforo, cálcio e magnésio e também está relacionado com os teores de enxofre e cobre, nutrientes essenciais para a FBN.  Em um estudo utilizando essa leguminosa em consorciação, observou-se que ele acumulou cerca de 192 a 600 kg de N ha -1. 

Uma nova cultivar de estilosantes, lançada pela Embrapa, a cultivar Bela, tem potencial de acrescentar ao solo até 248 kg de N ha-1.

Leguminosas têm impacto sobre a produtividade animal

O N fixado pelas leguminosas amplia a vida útil da pastagem, pois diminui a estacionalidade da produção de forragem. Há estudos que relatam sobre a relação da consorciação com o ganho e a manutenção do peso dos animais durante o período da seca. 

Em um trabalho realizado em Rio Branco/, AC em uma área consorciada com Arachis pintoi cultivar BRS Mandobi e B. humidicola manejada sob pastejo com lotação rotacionada, constatou um aumento de 47% no ganho médio diário e 52% na produtividade.

Também reduziu o tempo de recria em até 54%, onde antes o animal passava cerca de 20 meses no pasto convencional, passou para 13 meses no pasto consorciado.

A Embrapa em um estudo recente do consórcio entre o capim-marandu e a leguminosa desmódio (Desmodium ovalifolium) constatou aumento de 60% no peso dos animais.

Segundo esta pesquisa, o uso da leguminosa desmódio proporcionou um incremento semelhante à aplicação de 150 kg ha-1 de fertilizante nitrogenado. Esse consórcio pode reduzir em até 30% a idade de abate dos animais e reduzir os custos, contribuindo também com a menor emissão de metano entérico pelos animais.

A linha de produtos da SOESP Advanced é uma aliada no consórcio com leguminosas

A tecnologia SOESP Advanced produz sementes de Brachiaria e Panicum com alta qualidade, o que é essencial para um mercado consumidor que demanda alta produtividade. As sementes são protegidas por uma tecnologia com tratamento de inseticida e fungicidas, inteligência na absorção de água e alta pureza.

Consorciadas com leguminosas, as sementes de Brachiaria e Panicum podem aumentar a sua produtividade, melhorar a qualidade do solo, permitir a ciclagem de nutrientes, adicionar matéria orgânica ao sistema e reduzir o uso de fertilizantes e corretivos agrícolas. A tecnologia Advanced da SOESP facilita esta implementação, conheça mais sobre essa tecnologia que revolucionou o campo! 

Referências Bibliográficas

APTA. Consórcio de capim com leguminosa pode reduzir em 66% a emissão de metano dos animais. Disponível em: <https://balancosocial.apta.sp.gov.br/artigos/agro-mais-clima-e-biodiversidade/consorcio-de-capim-com-leguminosa-pode-reduzir-em-66-a-emissao-de-metano-dos-animais/>. Acesso em 06 nov. 2022.

BARCELOS, A.O; RAMOS, A.K.B.; VILELA, L.; BUENO, G.; JUNIOR, M. Sustentabilidade da produção animal baseada em pastagens consorciadas e no emprego de leguminosas exclusivas, na forma de banco de proteína, nos trópicos brasileiros. R. Bras. Zootec. 37 (spe), 2008. Disponível em:< https://www.scielo.br/j/rbz/a/KwNbj7GpY83JLJFfxWRGNxr/?lang=pt>. Acesso em 06 nov. 2022.

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NUTRI MOSAIC. Uso de leguminosa em sistemas integrados de produção agropecuário (SIPA). Disponível em:< https://nutrimosaic.com.br/uso-de-leguminosas-em-sistemas-integrados-de-producao-agropecuaria-sipa/>. Acesso em 06 nov. 2022

SALES, M.F.L.; ASSIS, G.M.L.; ANDRADE, C.M.S.; SÁ, C.P.; VALENTIM, J.F.; MESQUIT, A.Q. Recria de bovinos de corte em pastos de capim-humidícola consorciado com amendoim forrageiro, no Estado do Acre. Embrapa: Circular Técnica, 79, Rio Branco-AC, 2020. Disponível em:<https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/218373/1/27073.pdf>. Acesso em: 06 nov. 2022.

https://www.embrapa.br/en/busca-de-noticias/-/noticia/76849825/produtividade-da-soja-cresce-ate-20-em-consorcio-de-capim-com-crotalaria
https://www.embrapa.br/en/busca-de-noticias/-/noticia/41457533/em-consorcio-ou-em-valor-nutritivo-leguminosa-se-destaca

https://www.embrapa.br/en/busca-de-noticias/-/noticia/73561667/feijao-guandu-consorciado-em-pastagem-reduz-emissao-de-metano-em-ate-70

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